Valência de Unidade Residencial/Apoio Domiciliário

Com o advento da terapia antirretroviral de alta potência e a maior disponibilidade de propedêutica para diagnóstico de infecções oportunistas, os pacientes seropositivos para o VIH, nos últimos anos, têm apresentado maior sobrevida e com melhor qualidade.
Contudo, surgem outra dificuldade: a falta de adesão ao tratamento, determinada pelo uso de grande número de medicamentos, restrições em relação à dieta, necessidade de rigor no cumprimento de horários, efeitos colaterais frequentes, etc.
Tal dificuldade revela-se mais evidente, principalmente, em utentes co-infetados por HIV/tuberculose, onde a falta de adesão provoca não apenas insucesso no tratamento do utente, mas também risco de transmissão para familiares e de desenvolvimento de bacilos multi-resistentes.
No início, o apoio domiciliário destinava-se, principalmente, a utentes considerados em “fase terminal”, para os quais se procurava uma morte mais humanizada, no conforto do lar e se possível na companhia da família.
A experiência acumulada foi-nos demonstrando que o serviço de apoio domiciliário apresenta bons resultados na recuperação de pacientes com VIH/SIDA, cujo estado geral se encontra bastante comprometido com sequelas ou com dificuldade de adesão ao tratamento.
A melhoria dos métodos diagnósticos, o tratamento precoce das infeções oportunistas associadas ao VIH e o seguimento do utente numa vertente biopsicossocial, através de uma intervenção multidisciplinar com a finalidade de prestar assistência clínica, nutricional, terapêutica e psicossocial, tem alongado a sobrevida dos portadores de VIH, proporcionando-lhes maior período de tempo para desfrutar da vida na sua comunidade, especialmente do convívio com as suas famílias.
Por outro lado, a nossa experiência de terreno e a articulação constante com os serviços de saúde e ação social mostrou-nos um aumento de falta de possibilidade de resposta para utentes que recebam alta após internamento hospitalar prolongado e que se encontram em estado de caquexia ou com sequelas motoras, neurológicas, cognitivas, visuais ou auditivas e impossibilitados de realizarem de forma autónoma as suas atividades de vida diárias. Em muitos casos, a infecção VIH/Sida pode gerar problemas sociais significativos, pois nem sempre este quadro clínico necessita de internamento hospitalar e, muitas vezes, o domicílio não possui condições para os cuidados necessários a estes utentes (continuam-se a verificar pedidos de apoio para utentes que residem isolados em pensões).

Além disso, continuam-se a verificar casos de ausência ou abandono familiar.
Até ao ano de 2006, a Unidade Residencial apenas tinha capacidade de resposta para 3 pessoas; todavia, o apelo constante das entidades parceiras para integração de utentes e dada a ausência de respostas comunitárias, bem como, a dificuldade/ inadequação da integração em Lares, fez-nos perceber que, apesar as dificuldades, podíamos prestar um serviço especializado e de qualidade no que concerne aos cuidados continuados, privilegiando os direitos destas pessoas.
Com a possibilidade de arrendamento de um apartamento paralelo e após realização de obras de união das casas, passou haver uma maior capacidade e acesso contíguo.
No momento, prestamos apoio a 8 pessoas, dependentes nas AVDs, em situação de vulnerabilidade socioeconómica e de grave isolamento e/ou ausência de suportes de retaguarda ao nível familiar e socioinstitucional.
Tem-se verificado nos utentes integrados, uma melhoria do estado de autonomia, nomeadamente ao nível da recuperação de sequelas psicomotoras, do bem-estar psicológico, bem como melhoras no estado nutricional, havendo também um trabalho de tentativa de aproximação/reintegração familiar. Nesta casa, desde 2001 até há data, já viveram 31 pessoas.
Na verdade, a evolução da epidemia e as suas profundas modificações bem como, a disponibilidade de antirretrovirais cada vez mais eficazes, obriga a que os serviços de prestação de apoio para esta problemática também sofram transformações profundas.
A Abraço, apesar das muitas dificuldades inerentes à prestação de um serviço domiciliário atípico e único na sua forma e essência (24 horas/dia, durante 7 dias/semana), continua acreditar que apenas com uma grande capacidade de adaptação às várias situações-problema que surgem, com uma grande flexibilidade das pessoas envolvidas e levando sempre em conta as necessidades da população alvo, é possível respostas globais adaptadas e integradas.
A valência de Unidade Residencial e Apoio Domiciliário prestado desta forma é, sem dúvida, uma alternativa ao internamento hospitalar, reduzindo os problemas constantes de falta de vagas; tempo de duração dos internamentos, complicações clínicas que podem surgir devido a internamentos hospitalares prolongados (doenças oportunistas) ou de uma prestação em domicílio, bem como a redução dos custos de assistência, quando comparadas as despesas realizadas de um serviço de apoio domiciliário com as despesas de uma hospitalização ou internamento em lar.