Estética Solidária II na Galeria Abraço

Na mostra anterior, intitulada de Estética Solidária, propus uma reflexão sobre a questão da proximidade da arte para com a vida. Hoje a arte é, de facto, o espaço de reflexão, de tensão, de antagonismo, de denúncia, e é o palco político privilegiado de revoluções. Para Joseph Beuyso lugar do artista é de guerrilheiro social. Essa guerrilha, amorosa na sua génese já que pensa um mundo comunitário melhor, é o fazer do artista engajado, romantismo? No creio. No mundo de hoje se impõe à evidência que a arte, longe de ser irracionalista, é a expressão do (novo) mundo vivido. Para Walter Benjamin a sociedade industrial, e era da reprodução mecânica, retirou da obra de arte sua aura. O correcto é pensar que a obra de arte imolou-se em prol de uma maior compreensão da sociedade, pelos seus vícios e virtudes. Benjamin, como os filósofos humanistas germânicos Goethe e Schiller, pensou que somente o homem é capaz de superar a arquitectura da destruição imposta pela irracionalidade dos sistemas políticos. E, como homem, o artista é um dos principais agentes desta transformação.
É sempre possível recorrer a clarividência de Arthur C. Dantono seu brilhante ensaio intitulado O espaço entre a vida e a arte, fecha suas predilecções ao afirmar que se mudarmos a consciência, a realidade pode se mudar e esta mudança vem de dentro de cada um pois implica em si numa consciência colectiva. A maneira de eliminar a distância entre arte e a vida é fazer da vida algo que valha a pena ser vivida. A confiar nestas palavras é que propõe-se a reunião de artistas em torno de uma questão comum: a solidariedade. Não nos interessa aqui conteúdos e conceitos, o que nos importa é o binómio arte e vida. Usamo-la como norte, como farol, como guia para sensibilizarmos os espectadores.
Agradeço uma vez mais a generosa contribuição dos artistas a esta causa solidária.

Paulo Reis
Lisboa, Novembro 2009

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